Scrieri
 


Ţie (1994)
Tărâmul dintre gânduri (1997)
Cânt de Iubire - Song of Love (1999)
Imn Existenţei (2000)
Pelerin (2003)
Cânt de Iubire - Pesma Liubavi (2001)
Peregrino (2004)
Cânt de Iubire - versiune chineza (2006)
Cânt de Iubire - Song of Love - editie revazuta 2007
Cât de aproape... - Lo cerca que estabas (2007)
Unde esti, Timp? (2007)

Poeme - romano-urdu (2008)


Viaţa impersonală (1993)
Introspecţia (1994)
Înţeleptul de la Arunâchala volumul I (1997)
Înţeleptul de la Arunâchala volumul II (1997)
Caosmos. Katharsis nu doar pentru mine (2002)
Introspecţia - poeme (2005)
Frumuseţea Tandreţei (2006)
Harpă de umbră şi lumină (2007)
Viaţa impersonală (revăzută 2007)

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ELENA LILIANA POPESCU

Peregrino

Tradução do romeno por LUCIANO MAIA

Aparut in Brazilia, in aprilie 2009
Editura Expressão Gráfica


ELENA LILIANA POPESCU nasceu em 20 de julho de 1948 em Turnu Magurele, Teleorman, Romênia. É doutora em Matemática, professora universitária da Faculdade de Matemática da Universidade de Bucareste, poetisa e tradutora. Após 1989 tomou parte na vida social-política da Romênia, publicando diversos artigos na imprensa do país. É membro da União dos Escritores da Romênia, Seção de Poesia.

Publicou mais de vinte títulos de poesia em romeno e em traduções do inglês, francês e espanhol. Poemas seus, traduzidos ao inglês, espanhol, português, italiano, francês, sérvio, chinês, urdu, holandês, alemão e latim foram publicados em diversas revistas literárias da Romênia e do exterior (Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Cuba, Alemanha, México, Nicarágua, Paquistão, Porto Rico, Sérvia, Espanha, Estados Unidos, Taiwan e Uruguai).

Por sua atividade literária recebeu o Diploma Especial do Festival Internacional de Poesia de Uzdin (Sérvia, 1997), o primeiro prêmio do Festival de Poesia Novalis, de Munique, em 1998 e menção honrosa no X Certame de Poesia Leonardo Cercos, em Palma de Mallorca, Espanha, em 2007.

A crítica especializada da Romênia e de vários países tem considerado a escritura poética de Elena Liliana Popescu como um dos mais altos valores estéticos da poesia contemporânea, com repercussões extremamente positivas no âmbito dos estudos estéticos e de análise literária.

LUCIANO MAIA

PEREGRINO - UM DIÁLOGO PERMANENTE ENTRE O EU E O OUTRO

Podemos encontrar na poesia de Elena Liliana Popescu várias preocupações que atravessam de uma forma mais ou menos constante os poemas de PEREGRINO. Existe, no entanto, um aspecto dominante, que é o respeito pelo sagrado e pelo além, onde a dimensão de Deus está quase sempre presente, transpondo a maior parte dos poemas para uma dimensão que se poderá considerar de “imaterial”, situando-se mais ao nível do espiritual.

Existe igualmente um diálogo constante entre o Eu e o Outro, embora muitas vezes o Tu (ou o Outro) seja o próprio “Eu”, o que resulta numa interacção comunicativa que se processa num mundo interior. O “Tu” sou “Eu” e, portanto, o diálogo é comigo mesmo.

Nesse sentido, a poesia de Elena Liliana Popescu é uma poesia reflexiva e o discurso poético processa-se com o próprio “Pensamento”, como se este fosse o Outro e contivesse, em si, todas as respostas. Pensamento que é apenas o lado meditativo da autora que vai dando, deste modo, a resposta às questões que ela própria coloca.

Existem outras preocupações que percorrem ou estão latentes em muitos dos poemas do livro, como uma enorme consideração pelo além, pela alma, pela imortalidade e também pelo amor, embora este se apresente num sentido mais filosófico e platónico e não tanto numa expressão carnal, como se esse amor estivesse sempre mais longínquo e se tornasse inalcançável pela distância a que sempre se encontra.

É possível que essa seja uma das razões porque muitos poemas se dirigem a algo, a uma força mais poderosa do que o simples ser humano, que acaba por não poder fazer muito mais do que aquilo que lhe é terrenamente possível, mas que não é suficiente, sendo necessário algo que esteja acima da sua compreensão, que melhor a possa entender e, eventualmente, auxiliar, ou abrir uma porta de onde possa surgir uma luz que ilumine um caminho que possa ser trilhado.

A mesma consideração se poderá fazer em relação à Alma, que funciona muitas vezes como interlocutora e toma o lugar do Outro, actuando num plano superior e funcionando como algo mais etéreo, sem corpo, e por isso mais abstracto.

A poesia de Elena Liliana Popescu desenvolve-se assim numa dimensão predominantemente filosófica e espiritual e não tanto na realidade que a rodeia, retratando os problemas do dia-a-dia ou as preocupações sociais tão caras a outros poetas.

Mas se grande parte dos poemas se refere a um plano mais elevado em relação à dimensão humana, outros há, como é o caso do poema “A mesma resposta”, que é muito mais pragmático, e onde as diversas dimensões do ser são equacionadas.

Existe nalguns poemas uma dor latente, um sofrer quase constante, como se a autora reconhecesse a impossibilidade de nada se conseguir mudar e sobrevir a resignação a essa sorte, tanto na vida como no amor. O que no fundo é o que acaba por acontecer a todos nós, uns mais, outros menos. Por vezes há quase como que um desistir de tudo, uma desilusão pelo que não é possível alterar e, nessa altura, é preferível não ver e não pensar para não sofrer. Na verdade, pouco ou nada se pode mudar de profundo nesta realidade que nos rodeia.

Ao mesmo tempo, é possível reagir a esta fatalidade e chamar a atenção para aspectos que nos indignam: “Quiseras olhar o belo / no mundo que te rodeia / mas a dor que o leproso / padece, não te perturba?...” (“Quiseras olhar”).

Ou então num poema que pode colocar essa questão de um modo mais frio e impiedoso: “Põe de lado o véu que te turva a vista / põe de lado o temor que fere o teu poder / põe de lado a sombra que te cobre a palavra / e acima de tudo, põe de lado o pensamento”, aspecto tratado de uma forma exemplar no poema “Põe de lado o pensamento”.

Percorrer, estar noutros mundos, viajar ainda que seja dentro de si, parece ser uma preocupação da autora e a figura do peregrino, recorrente ao longo do livro (a começar, aliás, pelo próprio título) pode dar a ideia de haver um interlocutor distante, alguém que nunca está presente e, portanto, alguém com quem é mais fácil dialogar precisamente por causa desse distanciamento. Mas num outro sentido, pode apenas representar uma procura do Eu. Afinal todos somos peregrinos dentro de nós próprios.

A procura permanente da felicidade, que longínqua nunca se alcança, é também uma preocupação que se encontra latente em diversos poemas do livro. Um bom exemplo do que acabo de afirmar é o poema “Tão perto” onde essa preocupação é mais evidente. “Como seria fácil encontrares a felicidade / que está tão perto de ti / que buscas tão distante!...”.

PEREGRINO tem momentos de verdadeira beleza poética, como por exemplo os poemas “Para que retornes”, “Às vezes” ou “Me buscarás” (“Me buscarás / ali / onde me deixaste / esperando-te. // Me buscarás depois / com desespero /em qualquer lugar / onde imaginas / que eu poderei / estar. // E não me verás /talvez / nem sequer quando / eu enxugar as lágrimas / da tua dor.“, onde a relação com o outro se torna mais palpável, mais real, mais sofrida.

Mais versos de rara sensibilidade, retirados do poema “A voz do coração”: “…quantas vezes morremos num só dia? / E num só instante?...”, “…mas o instante, quantas vidas mede?...”, ou “…Onde está o Tempo / se eu sou sempre o mesmo?”

A poesia de Elena Liliana Popescu é uma poesia rigorosa, sem artifícios, numa permanente descoberta de si própria, como se reconhecendo-se melhor se conhecesse.

Lisboa, 1 de novembro de 2008

FERNANDO AGUIAR

O MODELO INTELECTUAL DA LIRA

Autora de vários volumes de versos, como Ţie (1994), Tărâmul dintre Gânduri (1997), Cânt de Iubire - Song of Love (1999), Imn Existenţei (2000), Pelerin - Peregrino(2004), Cât de aproape… - Lo cerca que estabas… (2007), Unde eşti, Timp? (2007), Elena Liliana Popescu se aproxima da poesia vindo da matemática, daí a nota de poderosa originalidade desta criação, que rema contra a corrente e que não segue a receita pós-moderna de última hora. A poeta assume deliberadamente o modelo intelectual da lira e esta modalidade não é abandonada também nos poemas reunidos neste volume de versos. O protótipo declarado da lírica cultivada por Elena Liliana Popescu continua sendo Mihai Eminescu1, corporificação suprema do poeta, aquele que “descendo entre os mortais, elegeu a língua romena para exprimir a essência divina do gênio”.

A poeta nos convida a olhar o belo no mundo que nos rodeia, um mundo dominado pelo mal e pelo sofrimento: “Quiseras olhar o belo / no mundo que te rodeia / mas a dor que o leproso / padece, não te perturba? // Ou o inferno onde vive / sem esperança de sair / um demente, que alimenta / com pesadelos seu ser?” (Quiseras olhar). Elena Liliana Popescu assume a postura de um rapsodo que fala, cheio de compreensão, dos grandes problemas da existência, como acontece no poema Não sabias: „A vida estava / a teu lado / e tu / não sabias / fascinado / pelo brilho / dos rostos / que / a inimiga dela / escancarava / diante dos olhos / teus / ainda fechados”. Diferentemente do modelo romântico da poesia, o poeta-matemático recusa o tumulto sentimental e prefere a esfera mais calma, com evidentes nuances clássicas, do mundo das idéias. A lírica de Elena Liliana Popescu é uma lírica de grandes interrogações sobre os graves sentidos da existência, como resulta do poema intitulado Como de outra forma?: “Guia a minha vida, Pai, / e aclara o curso / de águas tormentosas / dos pensamentos – eternamente / errantes! / Como de outra forma, por acaso / poderei compreender / a Palavra do discurso / do Silêncio pronunciado / pelo seu ardor no Candelabro / − perpétua expressão?”. A poesia nasce Num instante de calma, o instante das revelações supremas, quando o ser humano pode penetrar além da aparência banal das coisas, identificando, assim, o sacro, camuflado de profano:“Te vi, / num momento de calma / para além das máscaras / do teu orgulho / e, / olhando na tua alma, / eras uno comigo...”. Equivalente ao silêncio de Lucian Blaga2, o motivo de calma aparece em muitos poemas do volume, refletindo a surpresa da poeta em face da existência. “Tudo é velho em forma nova!”, afirma Elena Liliana Popescu num verso programático do poema A tranqüilidade envolve o mundo. Os grandes temas da poesia permanecem os mesmos ao longo dos milênios, sendo a nota pessoal de cada poeta a marca conferida aos seus versos. A originalidade destes poemas deve ser buscada na mistura pessoal de classicismo e modernismo, de tradução e inovação, amálgama insólito detectável tanto na versificação quanto no conteúdo dos poemas. É uma poesia que nada tem de ostensivo, uma criação que se destina, preferencialmente, às idéias, ao pensamento. O poema nasce do silêncio, um silêncio criativo que conduz ao nascimento da palavra. Tal qual Lucian Blaga, a poeta traduz em sua lírica a Palavra sagrada: “Deixa ao poeta / só os silêncios do / Silêncio / que gera / das palavras / a Palavra...” (Só os silêncios). Conforme se elucida no poema Um único canto, o pensamento é a porta de libertação do homem, ao tempo em que o canto tem uma profunda significação soteriológica, elevando tudo que o homem encontra em seu caminho. Velando junto ao fogo sagrado da inspiração poética, Elena Liliana Popescu assume a postura e uma vestal moderna no templo das Artes: “Acende a candeia no quarto obscuro / que espera a filtrada luz. / Veste tua alma com a roupa mais simples / para acolher como deves sua palavra quieta. // E deixa o seu raio límpido penetrar / cada canto, iluminando-o. / Vela sem cessar para que nada se esconda / e descobre a tua alma desconhecida” (Luz sossegada).

O que surpreende neste volume é uma abertura mais acentuada para o sonho, o fabuloso e o imaginário. O mundo é concebido como uma fábula, a vida é uma maravilha que tem origem na centelha primeva, remanescente do paraíso: “Uma fábula é o mundo / que em tua mente se coagula. / Vives total pesadelo / que seja talvez um sonho. // Não suspeitas do milagre: / que a tua vida inteira / é chispa da pederneira / que ficou no paraíso(Olvidado está o milagre). Às vezes, o real se confunde com o imaginário, porque as experiências sonhadas revelam-se tão intensas quanto aquelas vividas em estado de vigília: “Um conto desde que é mundo / de tua mente se desprende. / Olvidado está o calvário / padecido em tantos sonhos.” Na parábola moderna que nos sugere no poema Olvidado está o milagre, Elena Liliana Popescu fala da possibilidade de recompensa da existência por intermédio da arte, sendo a vivência poética equivalente à vivência paradisíaca da época mítica cãs origens.

Um outro elemento inovador é conferido pela presença da poesia de fatura religiosa. A sua poesia é a das grandes perguntas sobre o ser humano e sua condição no universo: “Cristo ressuscitou / no coração / do que deespertou / para reencontrá-Lo / ainda uma vez / talvez para / sempre.” (Para reencontrá-Lo). Os poemas de inspiração bíblica não formam um ciclo à parte no interior do volume, trata-se de um tema que é abordado ao mesmo tempo que outros temas ditos maiores da lírica. A poesia nasce da imersão no sonho; a condição poética tem algo da beatitude mítica das origens: “Em teu vôo / que à imortalidade / te conduz / e à memória eterna / um séqüito de anjos / vem para te acompanhar / e consolar tua saudade / de sonhar. / E que as lágrimas dos entes queridos / permanecidos à distância / convertam-se em âmbares / que iluminem teu vôo / até o alto / e para além das nuvens / − em tua direção – / para que te lances ao último salto” (Em tua direção). Como num sonho, o poeta imagina o mundo dos pensamentos ainda não corporificados em palavras, palavras que se entrelaçam em poemas ainda não compostos, à espera do poeta: “Parecia / que num sonho... // Pensamentos / não corporificados / ainda em palavras / se enlaçavam / em poemas / jamais pronunciados / alguma vez / despertando / a nostalgia / de um mundo / desde sempre / ao qual / não havia chegado / o tempo / para se pronunciar” (Para se pronunciar).

O poeta é visto assim como um peregrino que vaga “pelas não sabidas ilusões”, buscando respostas às grandes interrogações que o agitam: “Quem poderia, vencendo o próprio corpo / e os sentidos, a mente e o destino / apenas entrever, para além de tudo, / o que busca incessantemente o peregrino?...”(Para além de tudo). Diferentemente dos versos amplos de Imn Existenţei, os poemas reunidos neste volume são muito mais densos, aspiram a uma concisão aforística, a autora colocando um acento mais próximo da perfeição formal. Eis como soa a definição lírica em Ilusão:“Desprendida da asa do tempo / uma pluma em seu vôo buliçoso / um infinito esconde num instante / do mundo aparente que criou.”Algumas vezes, Aqui e agora, Elena Liliana Popescu define axiomaticamente as forças demiúrgicas do silêncio e da palavra: “A palavra cria o mundo, / o silêncio o mantém”. Cultivando a poesia das grandes interrogações, em disputa entre o sentimento e a razão, ela prefere o território encantado das “formas-pensamento”. Dentre os poemas que por sua dimensão mais ampla, lembram poemas do volume precedente, estão Peregrino, A voz do coração e Te aproximas. Deste vez, porém, trata-se apenas de algumas criações singulares. Em essência, deparamos com novos hinos à existência, constituindo o hino uma espécie em que Elena Liliana Popescu continua a atmosfera específica do volume anterior. Distinguindo-se dos poetas fascinados pelos experimentos artísticos de última hora, a poeta se aproxima de uma forma de gênero lírico (o hino) que conhece uma rica tradição na literatura universal, porém ignorada pelos poetas pós-modernistas. Seguindo o protótipo antigo, a poeta conserva o caráter solene de suas criações, e a aspiração suprema continua sendo o Absoluto, lugar onde, numa harmonia completa, “A palavra, os atos, a mente em ti se expressam. / A total liberdade, tácita, te anuncia.”(Peregrino).

Temas como a condição da palavra ou como o silêncio recorrem obsessivamente nos versos de Elena Liliana Popescu, como acontece no poema intitulado Palavras: “Palavras à imortalidade passam. / Palavras em rimas se desafiam. / Palavras se desprendem e morrem. / Palavras se elevam em vôo. / Palavras no coração penetram. / Palavras em si mistérios escondem. / Palavras – murmúrio de fonte. / Palavras cochicho e emoção. / Palavras em si mistérios escondem. / Palavras no coração penetram. / Palavras se elevam em vôo. / Palavras se desprendem e morrem / Palavras em rimas se desafiam. / Palavras à imortalidade passam”. A inspiração poética é considerada uma dádiva divina, de onde a atitude de humildade do poeta em face do demiurgo, d’Aquele que, sozinho domina a Palavra: “Então, quando as palavras chegam sozinhas / alinhando-se numa ordem perfeita / em sua pronunciação mágica / então, nos raros momentos de inspiração / sabes a quem deves agradecer: / Àquele a quem deves tudo, / Àquele que, sozinho, domina a Palavra.“ (Então). Quem sou eu? Que é a vida? Que é a poesia? Eis algumas das perguntas que torturam o espírito interrogador do poeta, perguntas às quais procura responder através do verso. As “palavras-ilusões” da poesia são, às vezes, meios de comunicação imperfeitos, que não conseguem refletir a inteira complexidade da existência. Um dos poemas programáticos mais significativos de Peregrino se intitula Amor de amor. A autora nos oferece aqui uma personalíssima definição de poesia. A arte poética de Elena Liliana Popescu parte da idéia de que, pela emoção da harmonia, a poesia é um “alimento“ de fatura espiritual: “A poesia pode alimentar o teu espírito / fazendo-o viver a emoção da harmonia / que buscarás depois com desespero / para descobri-la, inalterada / no mais profundo do teu coração.” Pelo seu ritmo e pela rima interior, a Poesia transmite um estado de paz, representa um caminho para o Absoluto. A criação se conclui por uma nova tentativa de definir a poesia: “A poesia não é mais do que amor de Amor, / harmonia da Harmonia, êxtase de Êxtase”. As preocupações de fatura teorética aparecem também no poema intitulado Um único poema. Definindo a poesia, a autora nos adverte sobre o fato de que todos os poemas do mundo nada mais representam do que fragmentos de “um único poema / o das meditações do homem / sobre a sua condição humana: / revolta, decepções / enganos e desenganos / sofrimentos reais ou imaginários / mas que te parecem, igualmente, poderosos./ Intentos de sair do impasse da impossibilidade / adiamentos, esperas, dores / mas também vivências no êxtase / que penetram as zonas sutis das essências / esperanças de humanização do Universo / dentro de nós”. Por conseguinte, a arte nada mais representa do que uma meditação infinita sobrte a condição humana no universo, uma meditação retomada, de maneira particular, por cada criador, à parte.

Recusando, programaticamente, os experimentos líricos de última hora, Elena Liliana Popescu consegue se impor pelo redescobrimento dos valores perenes da arte. A sua poesia significa busca, território das idéias e das grandes interrogações. Um ato de conhecimento, mais precisamente uma modalidade de meditação sobre a condição humana.

GHEORGHE GLODEANU

POEMAS

Elena Liliana Popescu

PEREGRINO

Ao meu filho Mihai Gabriel

I

Não sou mais que um pensamento teu – com asas.
Apenas viajar pelas eras me é dado
viver entre mundos distantes, morrer
e continuar com o vôo de deus errante...

Por sonhos flutuantes ser atraído
crer no feitiço da fada morgana do deserto
não trazer à mente a missão que me deste
eleger sempre o erro, não ser apaziguado.

Esquecer minha fonte sagrada cada vez mais
a mensagem do coração não saber escutar
e viver o pesadelo até o fim: o ódio
e a morte, igualmente, sejam minha assinatura.

Fazer guerra inútil contra outras gentes
adunar sem trégua imensas riquezas
que me seja o egoísmo a palavra de toque
e dentre os homens o covarde me pareça o melhor.

A crença proclamada seja palavra ao vento
e mesmo que o predique todo dia, não creia no verbo
mentir com facilidade e a tudo perverter
ter sob meu domínio toda a espécie humana.

Não entender que a vida é um dado imaculado
desperdiçar ao vento o talento herdado
não saber o que é piedade, golpeando sem dó
o caído, o pacífico, o indefeso.

E repetir sem cessar o erro inicial
no caminho do engano – o primeiro passo dado
evitar a justiça em fatos e em palavras
fazer com a estupidez um pacto duradouro

A insensatez e o medo não poder mensurar
não saber o que é a vergonha, ser fraco, traidor
dos meus atos banais fazer sempre grande alarde
a rendição ao poder do farisaico eu...

II

Um pensamento meu, bem deveras alado
no mundo de fantasmas, de ti exilado
e indo de lugar em lugar, sem saber
se podes alguma vez regressar triunfador.

Que dos sonhos enganosos consigas livrar-te
que nada te desvie da senda que elegeste
que aos poucos redescubras a missão que te dei
e decifres o mistério em ti incrustado.

Que tragas na mente cada vez mais claro
o que esteve contigo em périplo solitário.
Abre caminho ao amor, que no peito o guardes
e a vida defende dos que acordaram da morte.

Que possas ver em tudo aquele que tudo criou
que saibas que a riqueza não a detém o rico
que o universo mesmo vive por amor:
perdoar o inimigo está escrito em teu ser.

A tua crença crescerá sempre mais e mais
quando te submeteres à única prova
e busques a verdade: ser ou não ser?
Ser dono de ti mesmo enfim conseguirás!

Verás então que a vida será sempre sem fim
e toda a herança que acreditavas ter dissipado
espera-te aumentada, dela o dono serás
e o centro da tua mente será ilimitado...

Buscarás o começo e não o encontrarás
no salto derradeiro que possas cogitar
à tua terra natal, na mais humilde veste
purificado e livre de qualquer juramento.

Lá, onde o mal não tem como chegar
só a harmonia em tudo, una, se reflete.
A palavra, os atos, a mente em ti se expressam.
A total liberdade, tácita, te anuncia.


UM ÚNICO CANTO

Ao meu filho Dan Cristian

Uma única pétala
veste o universo.
Uma única vestal
Dá asas ao verso.

Uma única chamada
intenta o peregrino.
Um único acontecimento
depara com o destino.

Uma única olhada
salva a humanidade.
Uma única fortuna
não subjuga o ser

Uma única ressurreição
salva a humanidade
Uma única fortuna
não suplanta o ser.

Uma única essência
em tudo sobrevive.
Uma única ausência
integra todo o ser.

Uma única vereda
te leva para ti.
Uma única pergunta
tem a resposta viva.

Um único pensamento
é a porta da tua libertação.
Um único canto
eleva tudo que encontras no caminho.


TE APROXIMAS

Ao meu filho Nicolae Armin



Olha, um mérito a mais
se acrescenta hoje
ao teu re(des)conhecimento.

Não sabes, mas queres
poder saber
que não sabes nada sobre ti.

Aonde foi todo o brilho
das vaidades sedutoras?
onde estão os aromas embriagadores
do nada?

Te aproximas, amigo
do conhecimento
do próprio desconhecimento!

Te recordas
das tuas noites de insônia
de outrora
quando se aproximava a aurora
e te assustavas
com aquilo que acreditavas ser
a tua ignorância?

Te aproximas
cada vez mais
do alvorecer da verdadeira aurora
após uma noite infinita de insônia
com paisagens perturbadoras...

O desconhecimento parece às vezes
tão encantador,
para prender-te em suas redes
por séculos de ignorância...

O desconhecimento
pode ser muito tentador
até que consigas ver
os seus inumeráveis inconvenientes
e te dês conta de que é apenas um fantasma...
Rei coroado de ilusões ─
será forte na medida em que
lhe confiras esse poder.

Te perguntaste alguma vez
quem poderá ser ele
já que conhece os teus segredos
todas as tuas vicissitudes
todas os teu ilusórios desejos
e te atrai
só para que lhe sejas humilde servidor?

Se não sabes, vê que chegará o tempo
em que tuas perguntas dilacerantes
serão a paisagem das insônias
de quem queira saber
insônias que fatalmente virão –
para quem busca
incontidamente
o caminho para casa.

Te aproximas, filho, da simplicidade
e às vezes a aproximação
é tão dolorosa...
Ela escancara todas as dúvidas
todas as tuas inquietações
e a tua perturbação pode te ser fatal.

Não temas, não é para ti, o que és
mas para aquele
que tu imaginas que és
aquele que tu defendes
cem vezes por dia
o que culpas milhares e vezes
para perdoá-lo outras tantas mil vezes
a cada momento.

Oh, como gostarias de saber
o que te poderá levar ali
onde não sabes que estás!...

Irás até lá, sem dúvida,
mas te assustará o perigo
feito de milhares de perigos
minúsculos
que te espreitam a cada passo.
Acaso não é melhor que saibas
que ele te acompanha permanentemente
e aceitares
que se torne o teu companheiro de viagem?

Te espanta o fato
de poderes perder
o direito à ignorância
ao ser atraído até a loucura
pelo inefável do nada
que poderias chamar de caos
nos teus melhores momentos...

O tumulto da diversidade
te atrai como um ímã.
E no entanto
no mais fundo do teu ser
há paz...

E esta paz te envolve
em sua sinfonia silenciosa
algumas vezes
muitas vezes
sempre...

Te aproximas do rio -
“saber ou não saber.”

Estás preparado para atravessá-lo?
É espantoso!...
Corre diante dos teus olhos
largamente abertos
mas que ainda não vêem.

Te aproximas
da grande pergunta, filho!
Estás preparado para saber a resposta?

O que te impede de ver
talvez seja, paradoxalmente
o que pode te ajudar a encontrá-lo...

Estás preparado para seguir adiante?
Ou talvez mais perto, quem sabe?

Participas ou não
da destruição das estátuas
que glorificam teus (des)méritos?
Elas vão tombar, de qualquer modo
por elas mesmas
quando tu poderás construir outras,
igualmente insignificantes
segundo a tua livre vontade.

Te aproximas da simplicidade
e os obstáculos em teu caminho
não se envergonharão de tomar as formas
mais ameaçadoras!
E algumas vezes –
ainda que possam então
te parecerem sedutores −
farão de tudo
para deter-te no caminho...

Te aproximas
da grande simplicidade, filho!

Te assustará talvez o caminho
em estarás cada vez mais sozinho...

O que crês que poderia deter-te
que parece ser tão forte
ainda que seja ilusório
pergunta: “que poderá ser?”

Quanto mais te aproximares
o perigo se amplificará
pela fascinação das infinitas
nuances da irrealidade
que podem te atrasar
se não fores
suficientemente firme.

Te aproximas do que és...
Estás preparado?


DIZ-ME

Ao meu esposo Nicolae



Não acreditaste
que poderias vencer
quando, renunciando a qualquer arma
lutaste contra tua própria imagem
pela tua libertação.

Nunca poderás te olhar
nos espelhos que te mostram
abatido ou orgulhoso
destemido ou covarde
segundo os teus desejos...

Isso te disseram
mas não acreditaste...

No país sem espelhos
“qual será o teu rosto?”
te perguntarás então
ainda uma vez, e saberás
se deixares que a resposta
chegue por si só...

Que tens a perder,
quando a busca é
a única realidade possível?

Qual é o caminho?
pergunta-se o que marcha
sem saber, pelo único caminho
pelo qual pode chegar...

Aonde chegar,
se le já está ali
mesmo se não pode ainda saber
que é o vencedor?

Que competição é mais temida
do que aquela em que tu
és o único concorrente obstinado?


Mas como podes lutar
quando o adversário leva
como amuleto
apenas o teu rosto?

“Perde todas as esperanças”, te disseram,
para que pudesses esperar de verdade!
Mas, diz-me, de que serve a esperança
para quem já tem tudo?
Ou o conhecimento do caminho de volta
para quem já chegou?...


OLHA

À minha neta Ioana Alexandra



Olha, a cada dia
como desponta o sol
fascinante, em teu coração
derramando em tua alma
uma sensação indescritível
em palavras.
Diante dos teu olhos surpresos.
Ele é a cada dia outro
permanecendo sempre o mesmo.


A TRANQÜILIDADE ENVOLVE O MUNDO

Ao meu neto Nicolae Dan



Soberbos abetos te circundam
por entre eles filtrando a luz
que brilha no âmbar
das gotas de orvalho.

A tranqüilidade envolve o mundo
renascido pelo bosque
vagando no cume de um monte
que sob olhos atônitos respira...

E o silêncio te perturba:
detém-se no vôo a abelha
sem voz se queda o besouro.
Tudo é velho em forma nova!


ATÉ HOJE NÃO TE DISSE

A Joaquín Garrigós

 

Até hoje não te disse
que os dias passam
sem me contar
seus pequenos acontecimentos diários
que todos os mares
voltaram do oceano
e que o seu leito seco chora calado
a vivacidade de suas ondas de outrora
que a tristeza profunda não tem mais palavras
e as lembranças
não se podem viver jamais como antes
que a vida é e não é
o que parecia ser então
ou num amanhã perdido alhures no passado
que tenho visto
como o pó cobre tudo
o perdão e o ódio de uma vez
que a aspiração ao melhor
se impregna da areia
mais fina possível
carga escondida cuidadosamente
entre as dobras da memória daquele ser
cada vez mais desconhecido
que o esquecimento não existe
tampouco a distância
a não ser, talvez, em nossos sonhos
de cada dia
onde nos recolhemos
tantas vezes
para podermos retornar
alguma vez
ao nosso sonho de sempre, ali
onde nos detemos de cada vez
para podermos retornar algum dia...

Até hoje não te disse
que o rio prepara o seu leito
para o seu retorno a casa
após peripécias sem fim
e os seres que abrigou
durante algum tempo
correm desamparados
sem saber que sua vida
significará daqui em diante
algo que os assustará de morte
em seu limitado entendimento.
Que o lodo das profundezas
está mais preparado que nunca
a aceitar as novas formas de sofrimento
para poder aspirar ao conhecimento
que tudo é insuportável
a mais não poder, onde tudo
parece a cada vez algo distinto
ao que não sabe ver mais
do que se pode ver
que a imensidão pode ser abarcada
no pensamento derradeiro
que pode tornar-se o primeiro
apenas uma vez na vida
ou que o ponto seja
tão açambarcador que abarque
toda a imensidade de formas distintas
cujas propriedade ignoradas
se penetrem até a identidade
em suas essências imperecíveis
que o caminho é via e meta em toda parte
onde haja combate e criação
pensamento e esperança
traição e reconhecimento
que todo o alento
está preparado para a viagem
para chegar ao lugar
de onde não se pode mais partir
sem sofrer a maior das desilusões
daquele que sabe...

Não te disse que a estação
se transforma a cada instante que passa
em virtude de uma lei ainda não descoberta
por especialistas oniscientes
para ir ao compasso das transformações
produzidas por mentalidades inalteradas
nem que as verdades
são tão perigosas
como as inverdades
quando alguém se obstina
em pô-las à prova
ou invalidar sua existência
que jamais pode significar:
mais tarde, outrora ou agora
num mundo submetido à mudança
e ao mesmo tempo imóvel
em suas funduras impenetráveis
que o tempo nada mais é
do que a mais temida face
do desconhecido, idolatrado
no intento humano
de superar as barreiras da ilusão invisível...


APARÊNCIAS

A Amalia Iorgoiu



Neste mundo
sem esperança
a esperança mesma
parece uma loucura.
Porém aquele
que é inigualável
em ousadia
oh, como muito
gostaria de estar louco...


UM NOVO DIA

A Vlad Copil



À última hora da noite
um novo dia nasce.
E os sonos te levarão
à saudade de te conhecer...


LUZ SOSSEGADA

A Theodor Damian



Acende a candeia no quarto obscuro
que espera a filtrada luz.
Veste tua alma com a roupa mais simples
para acolher como deves sua palavra quieta.

E deixa o seu raio límpido penetrar
cada canto, iluminando-o.
Vela sem cessar para que nada se esconda
e descobre a tua alma desconhecida.


1 Mihai Eminescu (1850-1889), o poeta nacional da Romênia, gênio criador sem par na literatura romena.

2 Lucian Blaga (1895-1961), poeta romeno de grande sensibilidade metafísica, considerado poeta-filósofo ou filósofo-poeta, pela crítica especializada.



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